Deus está nos detalhes

Fink abre esse trecho afirmando se impressionar quando seus supervisionandos parecem incapazes de responder algumas questões simples a respeito de seus pacientes. Segundo ele, conexões importantes podem ser localizadas entre nomes de membros da família e nomes de namorados e esposos. Se o analista não se propuser a perguntar sobre a idade do analisando ou em que ano estava na escola quando um determinado evento aconteceu, nenhuma conexão poderá ser feita.

A importância nessa ação do analista está, principalmente, no fato de que a repressão muitas vezes atua de forma que a conexão entre dois eventos ou idéias diferentes desapareça.

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Obter o que perguntamos

As respostas que obtemos dependem das perguntas que fazemos.  Nossa melhor aposta, enquanto analistas, é fazer perguntas abertas. Ao invés de perguntar “Isso te fez rir ou chorar?” é melhor evitar por palavras na boca do analisando. Nesse caso, perguntar “Para você, como foi isso?” ou “Como você reagiu?”. Esse tipo de formulação é especialmente útil quando trabalhamos com sonhos e fantasias.

2. FAZER PERGUNTAS

Segundo Fink, grande parte do trabalho do analista consiste em fazer perguntas que preencham detalhes, ajudem a completar sentenças ou explicar o que o paciente entende ou pretende com algumas das coisas que diz, tendo em mente o reprimido e a transferência. É também um aspecto do trabalho no qual a resistência do analista tende a se manifestar mais intensamente, ou ainda, na qual o analista pode dizer mais do que o necessário.

Durante as entrevistas preliminares, o analista pode formular uma interrogação para o paciente simplesmente levantando uma sobrancelha ou dando um olhar enigmático. São sinais imprecisos, que o analisando poderá interpretar como quiser, e isso é importante: quanto menos o analista disser, mais precisa a questão tenderá a ser. Menos é mais quando se trata de fazer perguntas.

Por exemplo, por vezes o analisando ouve algo na pergunta do analista que é diferente daquilo que o analista pretendia perguntar – a resposta poderá ser muito mais interessante, nesse caso. Isso se daria porque temos a tendência de projetar coisas que havíamos pensado naquilo que o analista diz.

Ainda assim, é de grande importância que o analista traga o analisando a discutir certos temas (formações do inconsciente, sonhos, fantasias etc) detalhadamente, até porque os analisando, surpreendentemente, muitas vezes não dão muita atenção para suas idéias e fantasias no inicio do tratamento e devem ser encorajados para fazê-lo.

 O analista não deve forçar o paciente a revelar coisas que ele ainda não está preparado para encarar. Contudo, ele não deve esquivar-se de estimular o analisando a falar de temas dolorosos ou difíceis.

É nesse ponto que pode surgir a resistência do analista. O analisando pode relutar em aprofundar-se em assuntos dolorosos, mas se a resposta do analista for a de recuar e não a de demonstrar ao analisando que quer que ele fale desses assuntos (se não hoje, amanhã – e o analista deverá fazer com que o analisando fale disso amanhã se o analisando não o fizer espontaneamente) – ele (analista) permitirá que o tratamento seja conduzido pela sua resistência, não pelo seu desejo – que é o que permite ao analista que leve a análise sempre além. Se o analista não transmite esse encorajamento aos seus analisandos, eles podem chegar a alguma dessas conclusões: (a) que o analista não está particularmente interessado nesses assuntos e não está comprometido com uma analise bem sucedida; (b) que o analista acha sua vida e fantasias repreensíveis, e não quer ouvir sobre elas; (c) que o analista não suporta as suas fantasias; ou, (d) que elas não são tão importantes assim.

Ao formular perguntas, o analista fará bem em utilizar as mesmas frases e expressões do analisando. Em algumas situações o analista deve ajudar o analisando a articular experiências através de uma série de perguntas, sem as quais o analisando se sente perdido. As questões devem evitar termos ambiguos, que podem significar coisas diferentes para diferentes pessoas.

Outra expressão do analisando a qual Fink chama a atenção é o riso. Segundo ele, o riso pode ter muitos significados na análise, de forma que seria importante questionar sobre um riso que segue um comentário, por exemplo.

Escutar apenas o que esperamos escutar

Uma outra razão pela qual é difícil o analista escutar exatamente aquilo que o analisando diz, segundo Fink, é a interação entre a linguagem e a percepção. A “fltragem sensorial” é importante para eliminar estímulos da percepção que parecem pouco importantes para a consecução de uma tarefa. E a linguagem teria, segundo o autor, importante papel na habilidade para se filtrar estímulos, propondo que talvez não sejam os problemas de filtragem de estímulos a causa para distúrbios da linguagem, mas sim o oposto.

Segundo Fink, há duas formas básicas de se ingressar no universo da linguagem: a forma “neurótica-comum” e a “psicótica”.

A forma “neurótica-comum” é composta pela predominância de pensamentos baseados em palavras e uma divisão entre o consciente e o inconsciente. Já a forma psicótica conduz a aprendizagem da linguagem por imitação, sem a divisão consciente e inconsciente e uma inabilidade para escutar, ao mesmo tempo, o sentido literal e figurativo de uma expressão.

Para aqueles que ascenderam à linguagem pela via neurótica é quase automático escutar aquilo que faria sentido o analisando estar dizendo num determinado contexto ao invés de escutar o que ele efetivamente está dizendo que pode ser incomum ou até sem sentido. Essa constante atividade de tentar fazer-um-sentido daquilo que escutamos é tamanha que a escuta, por si, fica em segundo plano. A percepção é suprimida em favor da interpretação. Para praticar a psicanálise, no entanto, temos que nos afastar dessa atitude tão habitual.

A história não faz sentido (ou muito sentido)

Ao contar uma história sobre si, o analisando é bastante parcial, em dois sentidos: primeiramente, deixa de fora uma grande parte da história (ou por não achar importante, ou por não achar lisonjeiro etc). Por outro lado, tende a contar a história como se ele desempenhasse nela um papel bastante claro. Herói, vítima, etc. Segundo Fink, outra das principais tarefas do analista é conseguir com que algum aspecto do analisando, que não endosse essa parcialidade, tenha uma chance de contar sua versão e seja escutada.

Em outras ocasiões a história não faz o menor sentido para o ouvinte. Em tais situações, cabe ao analista  tentar fazer com que o analisando preencha os espaços que foram deixados de fora.

Em alguns casos, a história é tão bem contada que o analista pode se questionar por que isso está sendo trazido para a sessão.

Remetendo ao que foi dito no trecho anterior, se há algo que a escuta analítica procura é por aquilo que não cabe, que não faz sentido, ou que faz tanto sentido que se torna questionável. Todas essas situações estão relacionadas com o reprimido.

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Análise como lógica da suspeição

Fink inicia esse trecho afirmando que a repressão é a luz guia na psicanálise. Virtualmente, segundo ele, tudo o que fazemos enquanto analistas deve ter como objetivo atingir o reprimido de uma forma mais ou menos direta. Por essa razão o analista dedica atenção especial aos detalhes da história que foram “acidentalmente” deixados de fora a primeira vez que ela foi contada.

Para o analista toda a história contada pelo analisando é suspeita. Não só por sua parcialidade mas também porque ela provavelmente está sendo contada por alguma propósito tático ou estratégico.

Se há algo que o analista deve ter em mente, de antemão perante qualquer novo paciente, é que: (a) a presença de sintomas na vida do paciente é indicativo de repressão (b) lapsos e atos falhos são mini-sintomas que representam o retorno do recalcado e (c) a retórica subjetiva pode nos auxiliar a apontar a repressão.

As causas dos sintomas em sujeitos diferentes são tão diversas que esperar por um fundamento último é inútil. O que é importante ter em mente são os princípios básicos da teoria analítica: medo quase sempre encobre um desejo, expressões de desgosto quase sempre são sinais de repressão etc.

Psicanalistas podem conhecer as formas de iludir que o discurso de um analisando pode tomar. Tal qual os sonhos se constroem pelos mecanismos da condensação e do deslocamento, o discurso dos analisandos funciona de acordo com uma série de outros mecanismos que tem como objetivo manter o inconsciente inacessível.  Figuras retóricas como metáforas mistas (“água mole em pedra dura tanto bate até que tem que cair”);  litotes (ao invés de dizer “tenho tesão na mulher do meu amigo, diz-se, “não acho a mulher do meu amigo feia”); a elipse (não pronunciar uma palavra por parecer óbvia num determinado contexto) dentre outros recursos como o pleonasmo, a digressão, a perífrase, a retração e a ironia podem ser utilizados com fins defensivos. Para o psicanalista nada é tão somente uma “figura de linguagem”. Toda a fala é uma solução de compromisso.

Atenção Flutuante

O que o analista procura escutar? A pergunta pressupõe que haja algo específico a ser escutado. A “atenção flutuante” é aquilo que permite ao analista escutar o que há de novo e diferente no que o analisando diz – e não ouvir simplesmente o que queremos ou esperamos a princípio escutar.

A atenção flutuante, segundo Fink, consiste em uma forma de atenção que flui de ponto a ponto, frase a frase, sem necessariamente tentar obter qualquer conclusão delas, interpretá-las, uni-las ou somá-las. Uma atenção que captura um nível de significação e, ainda assim, escuta todas as palavras e a forma como elas são pronunciadas.

Ser fisgado pela história que é contada é uma das maiores armadilhas para o analista iniciante. E isso, segundo Fink, iria ao encontro da grande expectativa do analisando, especialmente no inicio da análise, é que o analista entenda seu ponto de vista. O analista, por outro lado, deve prevenir-se de escutar da forma convencional e perceber que geralmente é de menor importância compreender a história ou o ponto de vista do que escutar o jeito que ela é contada.

A atenção flutuante, segundo Fink, é uma pratica desenhada para que escutemos sem entender.

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A história não faz sentido (ou muito sentido)

Ao contar uma história sobre si, o analisando é bastante parcial, em dois sentidos: primeiramente, deixa de fora uma grande parte da história (ou por não achar importante, ou por não achar lisonjeiro etc). Por outro lado, tende a contar a história como se ele desempenhasse nela um papel bastante claro. Herói, vitima, etc. Segundo Fink, outra das principais tarefas do analista é conseguir com que algum aspecto do analisando, que não endosse essa parcialidade, tenha uma chance de contar sua versão e seja escutada.

Em outras ocasiões a história não faz o menor sentido para o ouvinte. Em tais situações, cabe ao analista tentar fazer com que o analisando preencha os espaços que foram deixados de fora.

Em alguns casos, a história é tão bem contada que o analista pode se questionar por que isso está sendo trazido para a sessão.

Remetendo ao que foi dito no trecho anterior, se há algo que a escuta analítica procura é por aquilo que não cabe, que não faz sentido, ou que faz tanto sentido que se torna questionável. Todas essas situações estão relacionadas com o reprimido.

Adoro, mesmo sem ter cabelos.

Adiar a compreensão

Fink prossegue afirmando que não é por mostrar ao analisando que compreendemos o que ele diz que construímos uma aliança com ele, mas sim, por nos propormos a escutá-lo de uma forma que nunca foi feita anteriormente.

Enquanto usualmente a busca pela compreensão conduz a reduzirmos o que a outra pessoa está dizendo àquilo que nós achamos que já sabemos, a estuca do analista deve permiti-la falar longamente, interrompendo-a somente para pedir esclarecimentos, maiores detalhes ou exemplificações.

Quanto menos o analista considerar-se o alvo do discurso do analisando, e quanto menos ele se preocupar quanto esse discurso reflete sobre si, mais ele conseguirá retê-lo, lembrá-lo, sem esforço. Quanto menos ele utilizar-se como a medida de todas as coisas no discurso do analisando, mais facilmente ele poderá abordá-lo em seus próprios termos.

Isso, no entanto, não significaria que o analista deve enxergar o mundo do analisando da forma como ele, analisando, enxerga. Ocorre que, na maior parte dos casos (não todos) o ceticismo deve ser gradualmente introduzido pelo analista com relação à história que está sendo contado pelo analisando (especialmente no que concerne a um desentendimento com um companheiro, chefe, etc). Casa isso seja feito sem cuidados, o analisando pode colocar o analista como um aliado da outra parte. O ceticismo pode ser exposto mais imediatamente quando se trata de alguém que se gaba de enganar os outros, daqueles que tem conhecimento da psicanálise ou já fizeram terapia anteriormente.

Fink aborda as onomatopéias comumente atribuídas aos analistas, dizendo que sim, devemos cultivar uma ampla gama de “humms”, mas jamais utilizar aqueles que de alguma forma expressariam algum tipo de anuência ou concordância. O a função principal seria a de encorajar o analisando a prosseguir em sua fala, perceber que estamos a escutá-la.

Encorajar o analisando a falar. Nisso estaria o aspecto mais ativo da escuta analítica. Escuta do analista não deve ser passiva, sim ativa, aduz Fink. Se o analista quer engatar o analisando com o processo analítico tudo o que ele não deve ser é distante ou um observador objetivo – deve manifestar seu próprio engajamento ativo no processo. Nisso, segundo o autor, residiria um dos pontos nos quais a “neutralidade do analista” seria tão somente um mito.

CAPÍTULO 01: OUVIR E ESCUTAR

Fink abre o primeiro capitulo de seu livro afirmando que a primeira tarefa do psicanalista é escutar, e escutar com cuidado. Supreendentemente, segundo ele, essa é uma das principais dificuldades dos psicanalistas.

Isso aconteceria, segundo ele, porque ouvir o outro não é tarefa fácil: temos a tendência de ouvir tudo em relação a nós mesmos – o maior exemplo disso seria a tendência a relacionar uma estória que nos é contada a uma esstoria semelhante pela qual tenhamos passado.

Essa tendência possibilitaria que nos relacionássemos com as experiências de outra pessoa e implicaria dizer que nossa forma usual de escutar está muito centralizada em nos mesmos, não percebendo (ou mesmo rejeitando) a alteridade do outro.

Depreende-se, pois, que nossa forma usual de escutar é nascísica e auto-centrada. Em termos lacanianos, atada ao âmbito imaginário da experiência: o analista enquanto ouvinte está constantemente comparando e contrastando o outro consigo mesmo e mensurando o discurso do outro em termos do tipo de imagem que ele lhe transmite: alguém bom, mau, rápido, lento, profundo, vazio.

Fink relaciona esse tipo de escuta aos analistas que buscariam a empatia com o analisando.  Segundo ele, tais analistas (buscando combater um estereótipo do psicanalista como alguém distante e insensível) sugeriram que o analista deveria alcançar a empatia, sublinhando o que analisando e analista teriam em comum, com o objetivo de estabelecer uma aliança terapêutica. 

A critica de Fink é que tal forma de agir enfatizaria a “humanidade compartilhada” do analista e do analisando ao mesmo tempo que esconderia seus aspectos divergentes. Para Fink, tentar identificar-se ou ver-se parecido com alguém notoriamente diferente (racialmente, culturalmente, linguisticamente, sócio-economicamente, sexualmente ou mesmo em termos diagnósticos) não ajuda o analista no entendedimento ou auxilio dos pacientes.

Para o autor, a construção da aliança supostamente obtida a partir de uma resposta empática do analista pode ser alcançada tão facilmente ao se pedir para o analisando descrever sua experiência [“como foi para você?” (what was that like for you?)] com a vantagem de não colocar-lhe palavras na boca.

Quando trabalha no âmbito da dimensão imaginária da experiência, o analista esta focado em sua própria auto-imagem como refletida para ele pelo analisando e escuta o que o analisando diz tão somente na medida em que isso se reflete nele (analista). Suas preocupações aqui são com o que a fala do analisando significa para ele (analista) e sobre o que ela diz sobre ele (analista).

Temos ai então um problema: quando o analista trabalha fundamentalmente dentro do registro imaginário, tudo aquilo que não pode ser facilmente comparado com suas próprias experiências segue desacompanhado e freqüentemente permanece não escutado. Enfim, segundo Fink, quanto mais o analista opera no âmbito do imaginário, menos ele consegue escutar.

Opa! Relançamento saborosíssimo!!!

Hoje na comuna do Yes no orkut descobri que o segundo álbum dos Buggles. Quem são os Buggles? Por que na comunidade do Yes? Senta que lá vem a história.

Os Buggles são um dos duos ingleses pioneiros do synth-pop. Formado por Trevor Horn (baixo e vocais) e Geoffrey Downes (teclados), tiveram como grande sucesso “Video killed the radio star” (vulgo o primeiro-video-transmitido-pela-Mtv). Depois do sucesso estrondoso do single, os Buggles encontravam-se em estúdio. Numa outra sala, no mesmo estúdio, estavam os membros que compunham o Yes à época, meio sem saber que rumo dar para a vida, : Chris Squire (baixo), Steve Howe (guitarra) e Alan White (bateria).

Percebam: um duo, vocal e teclado, com idéias frescas e uma música de sucesso de um lado versus o baixista, o guitarrista e o baterista de uma banda consagrada, porem em pedaços, de outro. No que isso pode dar, hã? hã? Pois é, Buggles e Yes se fundiram para lançar, sob o nome “Yes”, “Drama”.

À época os fãs do quinteto progressivo detestaram, porque, claro, era difícil entender um disco do Yes sem os vocais do Jon Anderson. Não bastando lançar um disco, essa formação saiu em tour com recepção não muito calorosa. Drama, o disco, até foi reavaliado pelos fãs do Yes ao longo do tempo, sendo visto hoje como um trabalho de qualidade.

Essa fusão, que aproximou o Yes de Horn – este posteriormente tornou-se produtor do grande sucesso da banda (Owner of a lonely heart) – custou a carreira dos Buggles como artistas. Depois do fim desse projeto o duo retornou aos estúdios mas Downes se encaminhou para um trabalho com o Ásia. Horn, sozinho, finalizou aquele que seria o canto do cisne dos Buggles: Adventures in modern recording, o relançamento em questão com novas músicas.

Vale a pena conhecer mais da banda que compôs o clássico Vídeo killed the radio star: o single famoso está no primeiro disco da banda (The plastic age) que tem ainda outras grandes faixas como Living in the plastic age, Elstree. Sempre com letras inteligentes, questionando os avanços da tecnologia e a forma como as pessoas se relacionavam ou se relacionariam com eles.

O disco relançado (Adventures…) não fica atrás: a faixa título, I am a camera, Verminion sands… e agora mais 9 músicas para aumentar o catálogo dessa banda tão interessante quanto subestimada.

Abaixo, ao vivo ja nos 2000′s, em show de homenagem a Trevor Horn:

Estava assistindo com uma amiga ao “Mais Você” hoje quando (parênteses, sim, eu eventualmente assisto ao “Mais Você”. Quem se interessa por acompanhar mídia se interessa por essas coisas) Deborah Secco, em meio a uma discussão com outros “especialistas” sobre a final do BBB10, disse: “eu votei 3.000 (TRES MIL) vezes para o Dourado ficar”

Imediatamente comecei a calcular mais ou menos quanto ela teria gastado para fazer tais votos – ela disse ter votado pelo celular. Minha amiga comentou: “cê é bobo, claro que ela não votou 3.000 vezes. Ce acredita em tudo que dizem na televisão?” Minha única resposta foi: “eu acredito que ela tenha feito isso… qual seria a vantagem de alguém dizer na TV que fez algo tão boçal?”

Acho que minha crença nos 3.000 votos da Deborah Secco se baseia mais na experiência do que em isso ser ou não ser boçal.

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Em 1998 trabalhei por alguns meses como produtor num canal de TV. Trabalhava num daqueles programas populares que, quem assiste de fora e tem uma certa formação, acredita que são feitos para emburrecer o povo, manipulá-lo, enfim. A chefe da nossa produção insistia para que levássemos universitários para assistir o programa e não entendia quando dizíamos que não tínhamos sucesso nas sondagens. Ou seja, ela não entendia porque os universitários não queriam participar daquele programa, que ela considerava “um bom programa”.

Eu tinha uma visão de que o pessoal da TV era um bando de crápulas que se esforçavam para dar o pior o possível para a audiência, obter uma resposta rápida e receber seu contracheque. Minha surpresa foi perceber que não: boa parte, para dizer todos que eu tive contato na TV, acreditavam que produziam programas de qualidade. Não sei se preferia achar que eram pessoas inteligentes e sórdidas ou que tinham tão pouco senso crítico acerca do que produziam.

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Fenômenos como o Twitter colocam a audiência em contato próximo com os formadores de opinião – entenda-se por formador de opinião Marcelo Tas, Jô Soares, Willian Bonner, Preta Gil, Kleber Bambam etc. Colocar em contato, por óbvio, é diferente de inseri-los em seu universo. Recomendo a meus amigos que adicionem uma celebridade qualquer e observar como se organiza essa rede do elogio mútuo que rege nossos formadores de opinião.

Víamos hoje, eu e minha amiga, com horror, o pescoço da Ana Maria Braga e nos perguntávamos: “será que ninguém avisa que esse lance de plástica nela tá over”? Acho que não, nesse meio parece que nada que não seja o elogio é permitido. “linda”, “diva”, “poderosa” etc etc etc… Se a cara dela estiver corrida de ácido a cantilena será a mesma, aquela mentira que de tanto se repetir vira verdade. Ao menos dentro do grupo que compartilha esse discurso ou perante aqueles que tem sede de dele participar.

Com isso eu quero dizer: sim, acredito que a Déborah Secco tenha votado 3.000 na final do BBB justamente pela força que a mídia tem de hipnotizar especialmente aqueles que dela participam. Da mesma forma que acredito que a Ana Maria Braga deve acreditar-se o gás da Coca-Cola pelos elogios que recebe ou que a Claudia Leitte deve achar-se a Liza Minelli sempre que é chamada de diva. Esquisito.

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