CAPÍTULO 01: OUVIR E ESCUTAR
Fink abre o primeiro capitulo de seu livro afirmando que a primeira tarefa do psicanalista é escutar, e escutar com cuidado. Supreendentemente, segundo ele, essa é uma das principais dificuldades dos psicanalistas.
Isso aconteceria, segundo ele, porque ouvir o outro não é tarefa fácil: temos a tendência de ouvir tudo em relação a nós mesmos – o maior exemplo disso seria a tendência a relacionar uma estória que nos é contada a uma esstoria semelhante pela qual tenhamos passado.
Essa tendência possibilitaria que nos relacionássemos com as experiências de outra pessoa e implicaria dizer que nossa forma usual de escutar está muito centralizada em nos mesmos, não percebendo (ou mesmo rejeitando) a alteridade do outro.
Depreende-se, pois, que nossa forma usual de escutar é nascísica e auto-centrada. Em termos lacanianos, atada ao âmbito imaginário da experiência: o analista enquanto ouvinte está constantemente comparando e contrastando o outro consigo mesmo e mensurando o discurso do outro em termos do tipo de imagem que ele lhe transmite: alguém bom, mau, rápido, lento, profundo, vazio.
Fink relaciona esse tipo de escuta aos analistas que buscariam a empatia com o analisando. Segundo ele, tais analistas (buscando combater um estereótipo do psicanalista como alguém distante e insensível) sugeriram que o analista deveria alcançar a empatia, sublinhando o que analisando e analista teriam em comum, com o objetivo de estabelecer uma aliança terapêutica.
A critica de Fink é que tal forma de agir enfatizaria a “humanidade compartilhada” do analista e do analisando ao mesmo tempo que esconderia seus aspectos divergentes. Para Fink, tentar identificar-se ou ver-se parecido com alguém notoriamente diferente (racialmente, culturalmente, linguisticamente, sócio-economicamente, sexualmente ou mesmo em termos diagnósticos) não ajuda o analista no entendedimento ou auxilio dos pacientes.
Para o autor, a construção da aliança supostamente obtida a partir de uma resposta empática do analista pode ser alcançada tão facilmente ao se pedir para o analisando descrever sua experiência [“como foi para você?” (what was that like for you?)] com a vantagem de não colocar-lhe palavras na boca.
Quando trabalha no âmbito da dimensão imaginária da experiência, o analista esta focado em sua própria auto-imagem como refletida para ele pelo analisando e escuta o que o analisando diz tão somente na medida em que isso se reflete nele (analista). Suas preocupações aqui são com o que a fala do analisando significa para ele (analista) e sobre o que ela diz sobre ele (analista).
Temos ai então um problema: quando o analista trabalha fundamentalmente dentro do registro imaginário, tudo aquilo que não pode ser facilmente comparado com suas próprias experiências segue desacompanhado e freqüentemente permanece não escutado. Enfim, segundo Fink, quanto mais o analista opera no âmbito do imaginário, menos ele consegue escutar.